Precisamos falar sobre Fibromialgia!

Me arrisco a dizer que a Fibromialgia talvez ainda seja uma das maiores incógnitas da saúde, e especifico o termo saúde pela necessidade de uma equipe interdisciplinar para o melhor manejo, conforme as últimas diretrizes.

A Fibromialgia foi descrita pela primeira vez em 1904 pelo termo de Fibrosite e depois, com o avançar dos estudos destacou-se o fator da dor generalizada por Graham (em 1950) e tendo sua última atualização classificativa em 1970 por Smythe e Moldofsky.
Inicialmente, reconhecida como uma doença reumatológica, tinha como principal diagnóstico a identificação de 11 dos 18 pontos reumáticos dolorosos – sem causa traumática e/ou orgânica. Pacientes eram tratados com corticoides para evitar o processo inflamatório, hipotético, e assim obterem o controle da dor.

Uma vez que esses pacientes seguiam com dor, mesmo com intervenção de antiinflamatórios esteroidais despertou um cunho psicossocial, que ainda engatinhava, e seu manejo passou para a Psiquiatria; tendo ainda um critério de avaliação totalmente subjetivo e agora com medicações antidepressivas em doses mais baixas para a tentativa do controle da dor. Deu certo? Em partes! Os pacientes tinham alguma melhora na apresentação do período de latência, mas as crises se manifestavam de forma mais expressivas quando aconteciam.

Com os inúmeros estudos da dor, objeto de grande estudo, por muito tempo, esse engatinhar transformou-se numa caminhada mais discreta, mas com grandes alterações pelos conhecimentos que foram adquiridos nessa trajetória.

Foi em 2019, de um sussurro que iniciou por volta da década de 90, que a Fibromialgia recebe uma nova classificação: a Síndrome da sensibilização central. Essa, fica designada que os quadros dolorosos persistentes causavam uma hipersensibilidade no sistema nervoso central que era ativado a memória dolorosa frente a qualquer estímulo, físico e/ou emocional. Traduzindo tudo isso para uma linguagem mais simples: é como se fosse um mecanismo de uma casa inteligente, onde inicialmente tu emite o comando para ligar a luz apenas da sala, essa seria a dor inicial, mas com o tempo – pela repetição da luz da sala ser ligada em um determinado período – a televisão começa a ligar junto (seria o efeito secundário à dor). Aqui trazemos um conceito extremamente importante: as dores possuem memória e sentimentos, todo quadro de dor persistente ativa um mecanismo emocional naquele sentido, e toda vez que aquele sentimento for consciente, a dor se manifesta como presente. Mas atenção, não falamos de conceitos psicanalíticos; a neurologia se concentra na interligação de diferentes áreas para o mesmo estímulo. E esse conceito é importante porque reflete como desrespeito, e até mesmo, despreparo profissional, quando falamos que a dor do paciente fibromiálgico é psicológica – não é, ela de fato existe e é ativada por essa excitabilidade neuronal de mecanismos psicossociais mais conhecidos no dia de hoje.

O tratamento, considerado padrão ouro, consiste em exercícios de moderada à alta intensidade com Fisioterapeutas e profissionais da Educação Física, mecanismo medicamentoso com o médico e a Terapia Cognitivo Comportamental com o Psicólogo. No entanto, surge uma nova tática de tratamento no campo da Fisioterapia – uma espécie de homenagem aos conhecimentos da terceira onda da psicoterapia – a Terapia Cognitivo Funcional, terapia difundida por B. O’Sulivan que chega no Brasil pelo Dr. Ney Meziat, consistindo na abordagem
biopsicossocial – quebrar a crença que o movimento seria danoso ao paciente com dor crônica, reabilitando assim as questões de alterações do movimento que surgirão pela cronificação do quadro doloroso mas também removendo o aspecto da hipervigilância que está presente nesse perfil de paciente que acarreta danos e perdas nas questões de relações e laboro.

Mas atenção, se mudamos todo o conceito de classificação e tratamento, é mais que lógico perceber que sua diagnose também sofreu alterações. Todo paciente que recebe o diagnóstico de Fibromialgia deve ter o seu diagnóstico pautado em cima dos sinais e sintomas relatados, mas também uma pontuação mínima na escala IGD (índice geral de dor).

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